Ao acordar pela manhã, seus olhos espantados me vem à memória e sua voz trêmula se repete na minha mente em ponto morto. Existe a possibilidade de eu ser cúmplice? Gostaria de escrever nos muros a minha vergonha com o sangue das minhas veias. Não há redenção para uma mulher como eu. Não há sombras para repousar pelo caminho. Lembro de uma obra que escrevi meses atrás, onde eu dizia que a maior crueldade pode estar nas portas dos fundos. A covardia fica na porta dos fundos. Eu fiquei na porta dos fundos. Parada. Em silêncio. A noite estava mais escura que o normal naquele dia, eu me lembro bem. Lembro do vazio que ocupava meu peito, o que sustentava meu corpo em pé era o meu desejo, me perdoa quem puder, porque deixo o mínimo dos meus princípios quando afogo em mim. Amarrem os meus braços, ateiem fogo e me deixem queimar. Cortem a minha garganta e ofereçam a minha cabeça aos meus inimigos. Amarre uma corda em volta do meu pescoço e me arraste diante da multidão. Gritem pelas ruas que a minha vida não vale a pena. Que minha morte merece comemoração como uma data importante para todos. Me enterrem numa cova rasa. Não permitem que familiares visitem o caixão. Façam que familiares e amigos deixem a cidade. Queimem meus bens. Fotos. Joguem os meus membros aos cães. Lembrem-se de mim como uma desgraça que assombra os moradores como uma peste bubônica. Digam aos céus que minha alma não poderá ser salva e que não voltará para a casa. Que meu destino é aqui, vagando sem rumo ardendo em pecados que somente Deus é capaz de perdoar. Digam que minha mudança não é válida, porque os meus olhos me denunciam. Perguntem sobre mim aos amores que me tiveram, os questionem se conhecem verdadeiramente a mulher com quem se deitam, e os ouçam negar a minha existência.
A Tirania
Ao acordar pela manhã, seus olhos espantados me vem à memória e sua voz trêmula se repete na minha mente em ponto morto. Existe a possibilidade de eu ser cúmplice? Gostaria de escrever nos muros a minha vergonha com o sangue das minhas veias. Não há redenção para uma mulher como eu. Não há sombras…
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