Estranho fazer preces para algo “divino” pedindo sabedoria, diante do ódio que corrói a minha própria capacidade de entendimento.Tenho a certeza de que a sabedoria não pertence a um vivo, nem a um morto. E de que alguns são urubus esperando a nossa morte — sejam eles vivos, sejam eles mortos. Uma sensação estranha: nem mesmo a própria natureza pode possuir a sabedoria. As vidas que falam sobre a morte falam dela como algo simbólico. Nunca falam como quem fica e vive verdadeiramente. A morte pode ser vivida por alguns através da morte do outro — um conhecido, um inimigo ou um desafeto irrelevante. Mas nunca falam de viver a morte quando ela busca um amor; não vivem a morte do que amam. Ninguém sabe viver a morte do que realmente ama. Ninguém vive a morte de verdade e a glorifica; vivem-na no simbólico e, algumas vezes, na vida terrena, com grossuras de proteção. E, quando tudo desce, espalham vivências sobre o que viram, mas que nunca tocaram. Viver a essência do vazio é viver com um vácuo dentro do peito, há um prazer no velório do inimigo. Onde há morte, há dor e solidão — porque ela não difere vida alguma. A solidão segue o mesmo raciocínio: ela não é a porta do seu quarto trancado que afasta os seus indesejados, mas sim a ardência no peito pela falta do que se ama e do que se almeja. A morte só existe para o que você ama. A solidão só existe para o que você deseja. Não fale da morte se tudo o que você ama vive. Não fale da solidão se tudo o que você pede você possui. Minhas mãos parecem não tocar a sabedoria. Por quê? Por que eu busco entendimento enquanto queimo no fogo? Por que o egoísmo me parece vazio e limitado? Por que não respondem o que pergunto?
Nem deus nem diabo fez nada por mim…
Não procure um culpado.
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