O calabouço

 A luz da lua era a única possibilidade de ver algo naquela escuridão que ocupava longos quarteirões. Dirijo-me ao portão enquanto um homem alto e esbelto me espera.

— O que você fica fazendo aqui sozinha no escuro? Não tem medo?

— Não. — respondo, aproximando-me para sentir sua respiração. — Bem-vindo ao calabouço da bruxa.

 Levo-o para dentro da casa e apresento os cômodos, que estavam vazios. As luzes da casa permaneciam apagadas, e a única claridade vinha do quarto dos fundos (luzes de vela). Ele abre a porta, que estava entreaberta, e questiona:

— Esse é o seu quarto?  —  franze a testa. —  Você realmente dorme aqui?

 Fiquei me perguntando se era uma pergunta sincera, porque o quarto não era tão ruim. Talvez fosse ruim para o quarto de uma mulher. O cômodo é grande, com um colchão de casal no chão de assoalho antigo, um guarda-roupa pequeno para guardar os cobertores, uma mesa comprida à esquerda, preenchida de utensílios mágicos e alguns animais em conserva dentro de potes de vidro. Havia ainda um balcão ao lado da mesa, com ervas e livros.

— Sim, eu durmo aqui. — respondi.

 Na mesa, havia um feitiço acontecendo. O baralho cigano estava aberto revelando o andamento da magia. Era simples, mas exigia uma carga energética alta para funcionar com maestria. Ele cruzou os braços enquanto os olhos observavam cada detalhe.

— Macumba do quê?

— Limpeza. — menti.

 Eu estava contente. Era um dos poucos homens que não tinha medo de quem eu sou. É algo clichê de se escrever, mas, para um homem com fé fervorosa em Deus, era um comportamento incomum. Na última vez que nos encontramos, quase não falei —normalmente eu não falo. Não conversamos. Mas o envolvimento foi sutil desde então. Ele me embebedou aos poucos, com uma única intenção: arrancar informações. Notei somente quando cheguei em casa no outro dia. Normalmente os homens nos embebedam por sexo, mas ele queria saber sobre o ocultismo. Lembro de algumas perguntas que me fez — a noite estava brilhando por causa do álcool. Perguntou sobre o meu trabalho, sobre as coisas que eu havia feito. Questionou a relação com as entidades, mas não soube de nada que fosse valioso. Perguntou sobre a crença na feitiçaria com o intuito de medir o que realmente poderia ser verídico ou mera ficção criada sobre o ocultismo. A conversa foi apenas sobre isso. Ele ouvia atento e acompanhava o raciocínio. Fomos para casa quando o efeito do álcool havia cessado.

— É um quarto legal.

— Obrigada.

 Existe algo dentro disso que me traz conforto: ele não sabe quem eu sou. Não sabe porque não vasculha nada sobre mim. O interesse não é tão profundo a ponto de buscar o meu passado, ainda bem. O interesse é conhecer o mundo em que eu vivo, e não a mim. E com isso posso ficar em silêncio, sem precisar sustentar a imagem de quem tem resposta na ponta da língua. Ou ser a feiticeira resistente que possui mais perdas do que vitória. Não preciso me esquivar das coisas que fiz. Não preciso explicar as atitudes que tive para provar a ele que estar comigo não é um risco. Caso soubesse, eu perderia as noites agitadas e silenciosas. Com ele existe a possibilidade de fugir dessa vida, de fingir que vivo outra realidade. Os assuntos não são sérios, são superficiais — e acreditei odiar quem me trouxesse isso, mas me alivia.

Ele se levanta em direção a mim, e com a mão esquerda aperta o meu rosto, pressionando minhas costas contra a parede gelada, mordendo levemente o seu próprio lábio 

—  Você fez algo pra mim?

  Encaro seus olhos verdes, com a mente dizendo que não gosto de olhos claros  

— Não. — Menti. 

(silêncio)

— Você fez — insiste —  Eu sinto.  

— Eu não fiz. — respondo com a voz abafada

— Essa cara que você faz… — riu. — Eu gosto. Você pode fazer o que quiser, desde que você fique comigo.

Uma gargalhada me escapa e ecoa pelo quarto.

— Jamais faria algo para um cara como você. Prefiro a forca. 

— Você transa comigo, mas não gosta de mim fora daqui, né?

— Não. Você não tem notícias minhas há três meses.

— É, quando acho que acabou, você aparece. Sempre que estou tentando organizar minha vida, você aparece.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Elektra

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo