Cristo Deixou

  São 01:30 da madrugada e meus olhos fitam o verde escuro que a noite pousa entre os galhos da mata. Aos poucos sinto o meu coração parar com o silêncio da noite. Sempre vou deixar nas minhas obras o peso de ver o futuro. Sempre vou chorar pelo lado de dentro. Ando na mata…

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São 01:30 da madrugada e meus olhos fitam o verde escuro que a noite pousa entre os galhos da mata. Aos poucos sinto o meu coração parar com o silêncio da noite. Sempre vou deixar nas minhas obras o peso de ver o futuro. Sempre vou chorar pelo lado de dentro. Ando na mata durante a madrugada sem medo algum, com a esperança de ser atacada pelas costas por algum animal e morrer ali mesmo; jogada aos pedaços, exatamente como me sinto estando na minha pele — destruída. Não terei filhos. Não terei família. Meu marido será um homem intelectual e viajante, terá uma grande formação acadêmica e não irá parar em casa. E eu vou manter relações ocultas aos olhos dele. Me levará embora da minha cidade para que possamos nos casar, porque, afinal, ele acredita que minha mente se conecta com a dele. Nossas mentes se conectam, mas não nossos corações. Sou difícil e temperamental que age em prol do controle, no início será algo divertido. Ele buscará incansavelmente em algum momento, uma menina em mim, uma versão velha que morreu pelo caminho quando me encontrará. Inexistência. Só existe uma mulher amargurada com dores profundas de cotovelo. 

Eu gostaria de não olhar para meu lado fútil e mesquinho. Mas, me questiono a razão pela minha repulsa pelos meus defeitos. Minhas emoções e meus defeitos me tornam humana, e ser humana é algo que não me agrada. Não gosto de ver futilidade e ego em mim, mesmo sabendo que tenho direito de ser tudo isso. Sei que posso ter o que eu quero mesmo que não seja por meios honestos, na minha alma existe uma consciência humana que eu tenho asco e repulsa; gostaria de cuspi-la e enterrá-la. Porque quero. Porque quero o que eu desejo porque sou humana. Me deem um pouco do meu desejo. Um pouco de mim. Deixem um pouco de mim. Não posso desejar o que eu quero porque o meu desejo me força a crueldade e às vezes ela simplesmente não existe; e eu queria rasgar meus pulsos, as minhas coxas, o meu pescoço e rasgar o meu rosto porque conheço o meu futuro miserável com os mortos. Porque sou uma carcaça cheia de desejos guardados porque não vim para ser humana, mas para ser machucada, porque assim eu aprendo e eu entendo tudo através da dor. Não há vitória e grandeza em ajudar a humanidade, Cristo deixou isso como mensagem. 


Cristo deixou. Cristo deixou. Cristo deixou. Cristo deixou.
 Você vai seguir e eu também. Você ganhará comigo porque tudo que eu tenho é muito. Maldição nesses meus pés, destinada a andar pela eternidade em lares que não sou a esposa, mas o diabo que aflige o coração dos homens. E eu destruo suas vidas, assim como a das mulheres também. Porque é isso que eu faço — destruo para que você possa reconstruir. Gostaria da possibilidade de afundar no abismo acompanhada. Os mortos vejo em cima do telhado. Gostaria que pudesse conhecer o meu coração. O sol não brilha. A lua não ilumina. Meus amores eu perco porque meu destino é outro. Eu capoto. Te vejo. Chamo seu nome. Chamo seu nome em reviravoltas na cama. Chamo para viver um desejo que me é arrancado. Que me proíbo. Que me é negado. Meu desejo tem o seu rosto. Meu desejo tem amor. Aceito meu destino. Aceito me pôr na forca para que você possa seguir. Perco meu amor pela sensatez. Não me dói saber que os seus filhos não serão os meus. Vejo sua família enquanto a minha é inexistente, eu deixo a sua com você e sigo. Não é sua culpa eu ser uma miserável,  porque esse fardo não é de ninguém além de meu.

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