Até o último dia

Estava encarando o céu azul e ela sentou do meu lado, dizendo:

— Viveu por muito tempo apanhando do marido. Pobre mulher. E ainda voltou com ele depois de alguns meses.

Um gosto ácido toma meu paladar, passo a língua entre os meus lábios para diminuir o amargor. Acredito que eu seja uma experiência de tudo o que fui contra em algum momento da minha vida. Não sei onde posso concretizar as minhas opiniões, porque, com o tempo, elas são demolidas em vivências. E, mais uma vez, não possuo base para me explicar.

— Tudo bem ela ter voltado — respondi — Eu realmente entendo. Não por similaridade, mas por uma compreensão profunda por cada decisão. Existem aqueles que vivem experiências profundas e acabam se perdendo da própria identidade. E existem aqueles que assistem a cada experiência e decidem quem vai morrer.

— E a sua vida? Como vai viver essa parte dela como você realmente quer?

— Não sei se quero. Mas eu conheci o lado mais dócil e violento da submissão que alguém poderia ter a mim. Não era conquista, era essência. Poucos têm a honra de viver esse inferno e a experiência do limite emocional. Acredito que poucos saibam que uma pessoa submissa pode destruir o dominante de dentro para fora, sem a chance de recuperação. Não consigo pôr em palavras a sensação. Mas posso tentar:

É o mesmo que você mostrar a um cachorro que não o quer. Chispar para longe inúmeras vezes. Não alimentar, para evitar que entenda que o adotou. Os dias passam e ele está sem alimento, sem água. Ele continua no seu portão.

Você sai de casa e ele segue seus passos. Morde todos que tentam se aproximar e, às vezes, morde até a sua mão. E os compromissos da rua acabam porque a chuva começa a cair; ao chegar em casa, você entra e ele senta na frente do seu portão, mesmo com frio. E o choro ecoa por um longo período, uivando incessantemente. A tempestade chega com ele, e os dois permanecem juntos até ao amanhecer no seu portão. 

Os dias passam e o incômodo surge. Você liga para o abrigo de animais e pede para buscarem. Eles o levam e, finalmente, o incômodo cessa. Porém, depois de alguns meses, ele foge e volta, se joga aos seus pés e implora com os olhos para ficar. Ele não precisa de qualquer dona, ele precisa de você. Existe uma diferença.

Porque nada vai fazer com que ele pare. Nada fará com que ele saia dali. Nem outro cachorro maior e mais forte, porque, se precisar brigar até a morte pelo próprio espaço, ele irá.

O abrigo de animais não vai poder impedir, pois tentaram. Nem você em fase de fúria. Nada. Isso é excitante. Não é quem pode dar mais, é quem pode ser mais. Mas, mesmo depois de tudo, de toda a prova, você mantém a decisão de não adotá-lo. Porque você viu o que ele pode fazer para chamar a sua atenção.

Poderá rasgar qualquer um que se aproximar, pode matar a própria dona para que nada se aproxime dela. E, assim, ele visitará a casa e o portão até o último dia de vida, porque é a sua lembrança mais doce de quando a observava da janela. Agora imagine essa situação com um ser humano. É extremamente doentio e bonito.

— É profundo. Mas não consigo entender o prazer nessa vivência. E por que você não aceitou o cachorro? 

— Entendo. Queria poder decidir não sentir prazer. Mas não consigo evitar. Não o adotei porque ele me mordeu; e eu o matei. 

— Matou um cachorro por ele ser como você? 

— Não se pode ter o que não consegue controlar. 

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